terça-feira, 29 de janeiro de 2013


Breve viagem ao País Utopia de Thomas Morus

Não há nada como o sonho para criar o futuro.
 Utopia hoje, carne e osso amanhã.
Victor Hugo.

Debruçar-nos sobre as águas de Utopia não será tarefa vã. Ela é, antes de tudo, invenção: criada pelo escritor inglês Thomas Morus[1] (1478-1535) para nomear a Ilha de sua obra A Utopia ou o Tratado da Melhor Forma de Governo(2007), a palavra foi por ele formada através da união dos elementos gregos “óu ‘não’ e tópos ‘lugar’” (CUNHA, 2007, p. 807). Na acepção do escritor a palavra Utopia representa, etimologicamente, a imagem de um lugar sem lugar; idealmente, seu tópos elogiava os princípios éticos e políticos que regiam a república de Utopia e apontava para a possibilidade de imaginar-se um lugar reformado politicamente de modo a subtrair as desigualdades sociais entre os povos e os seus governantes. Com efeito, a criação deste tópos na literatura de Morus não se daria em plano divino, mas sim na terra, pelo trabalho e pelas mãos de homens e mulheres da Ilha cujas vidas se inclinavam para o prazer, a felicidade e a justiça.
A maneira de organização ética e política da Ilha de Utopia em que todas as ações “visam ao prazer, que é sua feliz realização” sem jamais ferir o outro nesse processo, pois “roubar o prazer de outrem ao buscar o seu é verdadeiramente uma injustiça” (MORUS, 2007, p.101), quando de sua publicação no século XVI mostrou-se uma crítica à Inglaterra da época, já que esta através da política econômica dos cercamentos da terra, do monopólio sobre produtos manufaturados e da especulação do campo, excluía das vantagens econômicas os camponeses, pequenos proprietários de terra e pequenos comerciantes, tornando-os por sua vez miseráveis.
A ojeriza à justiça inglesa é evidenciada no Livro Primeiro quando do diálogo entre o próprio Thomas Morus (o autor é também personagem), Pierre Gilles (amigo de Morus) e o viajante Rafael Hitlodeu, este nascido em Portugal, mas que doravante deixaria sua pátria para percorrer o mundo. Rafael Hitlodeu além de viajante era também um erudito, tendo-se dedicado ao estudo do latim, do grego e da filosofia. Suas inclinações políticas são evidenciadas logo nas primeiras páginas do Livro Primeiro, onde conta que certa vez sentado à mesa do cardeal John Morton (outro personagem real contemporâneo de Morus) conheceu um homem “leigo” que também estava à mesma mesa e enaltecia a rígida punição da Inglaterra contra os ladrões mostrando-se surpreso com a existência dos mesmos já que eram cientes de que deveriam pagar com a própria vida por roubarem. Ao ouvi-lo, Hitlodeu então assim o contrapôs:

Um roubo simples não é um crime tão grande que deva ser pago com a vida. Por outro lado, nenhum castigo conseguirá impedir o roubo por aqueles que não têm nenhum outro meio de sobrevivência. (...) Decretam-se contra o ladrão penas duras e terríveis quando o melhor seria providenciar-lhe meios de viver, a fim de que ninguém se veja na cruel necessidade de roubar primeiro e ser enforcado depois. (MORUS, 2007, p.28)

Ora, o que vemos através dessa afirmação de Hitlodeu é um posicionamento político contra as medidas de justiça da Inglaterra sancionadas pelos príncipes e a nobreza, usurpadores que se nutriam do trabalho de outrem e que ainda por cima arrastavam consigo “um cortejo de preguiçosos que jamais aprenderam um ofício capaz de lhes dar o pão” (MORUS, 2007, p.29). O viajante além de acusar a nobreza pela miséria do Estado, se recusava a ligar-se a qualquer rei dos países pelos quais se aventurava - e mesmo o de seu país - pois via nesta ligação um ofício inútil. Afinal, dirigir a palavra a um rei não seria como “contar uma história a surdos?” (p.54) Raciocínio coerente para quem acreditava que a filosofia está longe dos nobres de forma tal que “não tem acesso junto aos príncipes” (p.55). Mais adiante e ainda no Livro Primeiro, Hitlodeu condenará de forma veemente a propriedade privada, pois para o viajante enquanto tal propriedade subsistisse “a parte mais numerosa e melhor da humanidade carregará um pesado e inevitável fardo de miséria e preocupações” (p.59). O viajante assim, defendendo a igual partilha dos bens como única medida para a aquisição de um Estado justo e próspero, vê no modo de governo regido soberanamente pelo dinheiro o elemento que fecunda os males, as desigualdades, o abuso de poder pelo principado e as misérias de um povo. Indagado por Morus sobre a possibilidade de imaginar uma vida diferente desta, em que os bens pudessem ser igualmente partilhados, Hitlodeu dá início então no Livro Segundo à sua descrição dos costumes e instituições da Ilha de Utopia, país cercado me mar por todos os lados onde viveu mais de cinco anos e que “jamais o teria deixado se não fosse para fazer conhecer esse novo universo” (MORUS, 2007, p.61). Descrevendo Utopia percebemos que os utopianos viviam sob um sistema de governo que não sucumbia às perversões como o Estado Europeu. A Ilha, com suas casas que permitiam a entrada de qualquer pessoa, não incitava a propriedade privada e se constituía como um tópos harmonioso pensado por seus próprios habitantes, construído por seus esforços e capaz de tornar a felicidade um bem vivível, já que regidos por leis incorruptíveis. A Cidade bem como todas as outras do País é regida por leis que visavam a igual partilha dos bens da vida de maneira tal que os utopianos possuíam um desprezo pelo ouro e a prata, como assim relata Hitlodeu:

Eles próprios não fazem uso da moeda. Conservam-na para um acontecimento que pode sobrevir, mas que pode também jamais ocorrer. Esse ouro e essa prata eles a conservam sem atribuir-lhes mais valor que o que comporta sua natureza própria. (...) Com efeito, estes se espantam que um mortal possa se comprazer tanto com um brilho incerto de uma pequena gema, quando pode contemplar as estrelas e o sol. (MORUS, 2007, p. 95)

Vê-se na Ilha de Utopia e em sua capital Amaurota a descrição de um povo que prefere deter-se aos prazeres e as belezas da natureza a deixar-se corromper pelos valores dados ao dinheiro por certas civilizações (como a própria Inglaterra). A Ilha criada não por inspiração divina, mas pelo trabalho e inteligência da civilização utopiana é um espaço sonhado de uma Cidade literalmente sem lugar, imaginada pelo autor. Sobretudo, a descrição desse quimérico País criado por Morus no século XVI dirigia-se à Inglaterra do seu Tempo, mas também a ultrapassava, pois prenunciava o futuro naquele ano de 1516: sua literatura influenciaria as bases das teorias socialistas dos séculos XIX-XX (foi referência para a Revolução Russa) e lançaria ao mundo as auroras do pensamento sobre um tópos encontrado nos mares de espaços idealizados, localizados em geografias imaginárias. A Utopia deve-se pontuar, plantou as sementes que germinaram no contemporâneo o pensamento caminhante que leva o nome de sua obra e que ainda hoje se debruça sobre outras utopias, atopias e heterotopias[2] do mundo, cujas veredas inevitavelmente acabam por perpassar a estrada dos delírios, paixão esta que é tão cara a nós humanos...  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CUNHA, Antonio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexicon, 2007.
MORUS, Tomás. A Utopia ou O Tratado da Melhor Forma de Governo. Tradução de Paulo Neves.  Porto Alegre: L&PM, 2007.
FOUCAULT, Michel. "Outros Espaços". In: Estética: literatura e pintura, música e cinema/Michel Foucault. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.



[1] Thomas Morus nome latinizado de Thomas More, por vezes traduzido para o português como Tomás Morus, nasceu em Londres em 1478. Viveu na época das descobertas marítimas, literaturas de viagens e da Reforma Católica (tendo apoiado o rei na Contra-Reforma). Foi contemporâneo de Erasmo de Rotterdam (1466-1536) e Nicolau Maquiavel (1469-1527). A Utopia ou O Tratado da Melhor forma de Governo publicada em latim no ano de 1516 tem como referência narrativa A República, de Platão. Morus foi decapitado em 1535, por não apoiar o divórcio do rei Henrique VIII. Foi beatificado em 1935 pela Igreja Católica.

[2] Termo formado por aglutinação pelos elementos gregos “heteros ‘outro, diferente’” e “topo-, de topos ‘lugar’” (CUNHA, 2007, p.408 e 776) é um conceito criado por Michel Foucault (1926-1984) e apresentado na Conferência Outros Espaços (1984). Para o autor, as heterotopias ao contrário das utopias “espaços que fundamentalmente são essencialmente irreais” (p.414) seriam espaços reais, localizáveis: “utopias efetivamente realizadas” (p.415).

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Sonho Amazônico

Pablo Amaringo (1943-2009).



No seio da Floresta
Vi pajés coloridos entoarem cânticos
Índias de prata abrirem estrelas
E entregar suas luzes como oferenda
Para fazer dançar
os príncipes-trovões

No seio da Floresta
Vi o Sol transformar
os pássaros em ouro
Vi raízes e folhas virarem manto
E o leite das árvores dos seringais
Pintarem de branco
os cabelos dos Rios

No seio da Floresta
Vi o Povo da Água emergindo da chuva
Vi o Povo do Fogo sobre os raios do Sol
Vi o Povo da Terra saindo das grutas
E mulheres guerreiras voltando das lutas

No seio da Floresta
Ouvi as vozes das sereias-feiticeiras
Onças aladas movendo-se nas telhas
Ouvi pulsar o coração de uma estrela

No seio da Floresta
Com meu terceiro olho sônico
Movi-me nas densas trilhas de éter
Rumo a um íngreme sonho amazônico.



Niterói, novembro de 2012. Poesia para Rio Branco - Acre. 

sábado, 5 de maio de 2012

O marco zero


Niterói, 05 de maio de 2011, 12h30 pm.  



Em busca de territórios de abrigo.
 Foto: Mariana Farias. Luana Costa, 2011.


Houve noite e manhã, o sexagésimo terceiro dia. Abro os olhos e lentamente a imagem do sonho noturno se desvanece. Desperto ao som de meus ossos se quebrando, galhos velhos de floresta seca. Como se deslocados do corpo, meus ossos parecem dançar um movimento anímico e perfurar-me cada película da epiderme (meus órgãos devem estar em hemorragia enquanto falo). Impactos do exterior transtornando-me o meio: efeitos da água salgada sobre minha concha doce destroçam-me a casca atingindo a pele fina. Esta concha não suporta a ausência de rio. Movida por minha modesta fome de quarenta e três disparos, rastejo-me sobre o chão e vou até a cozinha almoçar restos de torrada molhadas no café velho. Sentindo os calcanhares contorcerem, volto em ritmo de elefante para o único cômodo que posso chamar meu. Ouço os ratos se movendo no telhado. Deve ser o calor das paredes. Aqui elas têm boca e exalam um hálito quente, o mesmo hálito que deve aquecer as pernas de padres debaixo de batinas negras. O calor do quarto parece comprimir ainda mais a minha concha quebradiça de caramujo e tenho vontade de adormecer e adormecer. Deve haver uma força de empuxo sob o meu colchão, magnetismo dos latifúndios do Inferno. Vendo-a bem, ela assim recostada na parede alaranjada parece mesmo o leito de um morto. Talvez eu esteja de fato morta e estes sejam escritos fantasmáticos (o que garante a veracidade da vida?).

Pelo menos eu tenho um celular. Minhas ampulárias-irmãs me telefonam. Perguntam como vai a vida no quarto. Digo que a vida vai um cômodo só. A saudade trinca os ossos, quebra vagarosamente os pedaços de minha casca frágil, estilhaça-a ainda mais o ricochetear do vento de Sal. Às vezes escuto o  ruído anunciando o desmonte(é preciso aproximar-se para ouvir) e sinto que devo sair da concha quebradiça, arriscar um escape antes que ela se quebre e me dilacere. Sou pedaço, carcaça, carne varrida de minha própria terra. Desço as escadas estreitas, abro o portão: com o  corpo em ruínas, a garganta da cidade vem me receber.

Bem-vindos ao meu Coração


Escritas cartográficas. Caderno Rumos.
Luana Costa, 2011-2012.
 Caros tripulantes sejam bem-vindos. Peço-lhes neste inexato instante que tragam às mãos epitélios e ouvidos atentos a fim de escutar bem os sons que ecoam por entre este órgão que levo entre as costelas.  O que aqui se ouvirá será nada menos que os cantos de uma poeta a conduzir-lhes por entre as artérias das cidades contemporâneas que atravesso. Para tal façanha – e como Baudelaire, o maldito - quero também deixar meu coração a nu, abrir suas cavidades afim de que o leitor encontre nas palavras que se escreverão meu próprio sangue e minha própria carne. Sangue & carne de uma cancioneira do povo vinda de um Estado chamado Mato Grosso e cujas canções provém de um Mundo Terceiro nomeado Brasil. Sangue e Carne de uma poeta que escolheu assumir-se como poeta-guerreira e mulher no contemporâneo enfrentando todos os malogros que advém de seu posicionamento e desejo de consciência de si; Sangue e Carne de uma cancioneira do povo desempregada do Mundo e que mesmo tendo fome oferece os rubis de sua miséria; Sangue e Carne de uma poeta que deu-se o direito de formular contradições, assumir-se como minoria, descarnar desigualdades, experimentar, (re)inventar e sitiar a cidade que percorre através de ações que com águas vermelhas batizamos "guerrilha poética em atos" buscando mesmo vivificar os sentidos da poesia enquanto um "fazer" e um "agir" -  do grego poiesis, poesia em seu sentido etimológico está ligada ao verbo "fazer" e é portanto ação; será através do agir, da vivência poética plena e em todas as instâncias da vida desta poeta que vos canta que ouvir-se-á alinhavadas por entre as letras das escrituras a porvir, Poemas em Verso e Prosa, erguidos do embate com as Cidades que percorro em busca de espaços que chamo “territórios de abrigo” - nome este criado tendo gustação no texto Mundo-Abrigo (1973) do artista carioca Hélio Oiticica - além da contínua partilha das fotografias tiradas das ocupações nesses territórios, bem como os desdobramentos que advém dessas imagens. As portas do meu peito estão abertas para que entrem. Uma vez nas cavidades de meu coração, do meu corpo façam Pão e do meu sangue façam Vinho. Que as palavras que aqui virão, incite também a fome que há em seus corações. 


Luana Costa, 25/10/2012, tarde, Niterói-RJ.